Importância da terapia nutricional no cuidado de pacientes com câncer

4 min. de leitura

 Confira a análise de importantes trabalhos apresentados durante o Congresso Mundial da ASCO 2021

 

 

Baixas densidade e massa muscular esquelética são desfechos tardios associados à radioterapia definitiva em pacientes com câncer de esôfago  

 

Durante o Congresso Mundial da ASCO 2021, foi apresentado um estudo de coorte observacional que avaliou o efeito da massa muscular na sobrevida de longo prazo em pacientes com câncer de esôfago localmente avançado (estádios II e III) submetidos à radioterapia definitiva.  

A massa muscular e a densidade do músculo esquelético foram medidas por tomografia computadorizada. Pacientes com alta e baixa massa muscular esquelética, assim como a densidade muscular, foram comparados em relação à sobrevida global (SG). 

 

Resultados: 

No total, 165 pacientes (75,8% do sexo masculino, idade mediana de 63 anos) foram incluídos, de março de 2012 a setembro de 2017. Antes da radioterapia, 26,7% dos pacientes apresentavam baixa massa muscular e 23,0% tinham baixa densidade muscular esquelética. Após a radioterapia, 40,6% dos pacientes apresentavam baixa massa muscular esquelética e 30,3% baixa densidade muscular.  

A mediana de SG no grupo de massa e densidade musculares esqueléticas elevadas foi significativamente maior do que a do grupo de massa e densidade baixas antes da radioterapia (28,7 meses versus 28,2 meses, p = 0,041; 29,6 meses versus 16,9 meses, p = 0,025). A SG mediana do grupo alta massa e densidade muscular esquelética também foi significativamente maior do que a do grupo de baixa massa e densidade após a radioterapia (30,3 meses versus 20,3 meses, P = 0,012; 29,6 meses versus 17,2 meses, p = 0,018). 

Os autores concluem que as baixas densidade e massa muscular esquelética são desfechos tardios associados à radioterapia definitiva em pacientes sob tratamento para câncer de esôfago, sugerindo que os profissionais da equipe de saúde envolvidos no cuidado do paciente se atentem ao manejo da massa e densidade muscular dessa população a fim de melhorar o status nutricional.  

 

Desnutrição e sarcopenia resultam em prejuízo da avaliação geriátrica e piores desfechos em pacientes com câncer de bexiga submetidos à cistectomia  

 

Outro relevante estudo apresentado no Congresso avaliou a associação entre desnutrição e sarcopenia, prejuízo na avaliação geriátrica e desfechos clínicos pós-operatórios em pacientes com câncer de bexiga submetidos à cistectomia. 

Pacientes com câncer de bexiga submetidos à cistectomia radical entre 2012 e 2019 foram incluídos em um estudo de coorte prospectiva de avaliação geriátrica antes da cirurgia. A desnutrição foi avaliada por um nutricionista pré-ressecção de acordo com os critérios diagnósticos da Academy of Nutrition and Dietetics e da American Society forParenteral and Enteral Nutrition. A sarcopenia, definida por um índice de massa muscular esquelética < 52,4 cm2/m2 em homens e < 38,5 cm2/m2 em mulheres, foi determinada para analisar imagens pré-tomografia na vértebra L3.  

 

Resultados: 

De 73 pacientes, 59 tiveram avaliação geriátrica + nutricional e 51 receberam avaliação geriátrica + avaliação da sarcopenia (idade média de 68, 76% do sexo masculino). A prevalência de desnutrição foi de 7% e sarcopenia de 63%. Uma proporção numericamente maior de pacientes com desnutrição ou sarcopenia estava prejudicada com ≥ 1 medida de avaliação geriátrica em comparação àqueles sem desnutrição (100% vs 78%, p = 0,57) ou sarcopenia (78% vs 68%, p = 0,52), embora o resultado não seja estatisticamente significativo.  

O tempo médio de internação foi aumentado para pacientes com vs sem sarcopenia (5 vs 4 dias, p = 0,005). A taxa de complicações pós cistectomia radical foi semelhante para pacientes com vs sem desnutrição (100% vs 75%, p = 0,56) e pacientes com vs sem sarcopenia (81% vs 74%, p = 0,73), mas pacientes desnutridos estavam mais propensos a ter complicações de grau > 3 de Clavien-Dindo do que aqueles sem desnutrição (100% vs 27%, p = 0,009). 

Os autores concluem que nessa coorte de pacientes com câncer de bexiga submetidos a cistectomia radical, aqueles com desnutrição ou sarcopenia podem apresentar uma taxa maior de comprometimento da avaliação geriátrica em comparação aos indivíduos sem desnutrição ou sarcopenia. A sarcopenia foi associada ao aumento do tempo de permanência hospitalar, enquanto a desnutrição foi associada ao aumento de complicações pós cirúrgicas. Os pesquisadores ressaltam que os resultados são limitados pelo pequeno tamanho da amostra, e trabalhos futuros são necessários para elucidar se a abordagem desses fatores modificáveis melhora o estado funcional e os resultados pós-operatórios. 

 

Alteração no índice do músculo esquelético e seu significado prognóstico na terapia de conversão para câncer colorretal inicialmente irressecável  

 

Ainda no Congresso, foi apresentado um interessante estudo que avaliou os efeitos da quimioterapia sistêmica na musculatura esquelética e na sobrevida de pacientes com câncer colorretal estádio IV submetidos à terapia de conversão. 

Ao todo, foram revisados 98 pacientes com câncer colorretal estádio IV que receberam quimioterapia sistêmica em um hospital do Japão. De acordo com o ambiente de tratamento, os pacientes foram divididos em grupos de ‘conversão’, ‘quimioterapia neoadjuvante (QTneo)’ e ‘paliativo’. A área de secção transversal dos músculos esqueléticos no terceiro nível lombar e as alterações no índice muscular esquelético (SMI), definido como a área dividida pela altura ao quadrado, durante a quimioterapia foram comparadas entre os grupos de pacientes. Os efeitos desses parâmetros no prognóstico foram analisados no grupo de conversão. 

 

Resultados: 

O SMI médio aumentou 8,0% durante a quimioterapia no grupo de conversão (n = 38), enquanto diminuiu 6,2% no grupo QTneo (n = 18) e 3,7% no grupo de paliativo (n = 42, p < 0,0001). Além disso, os pacientes com SMI aumentado durante a quimioterapia tiveram uma melhor sobrevida global (SG) do que aqueles cujo SMI diminuiu no grupo de conversão (p = 0,021). O aumento no SMI foi um preditor independente de SG favorável na análise multivariada (HR: 0,26). 

Os autores concluem que entre os pacientes com câncer colorretal estádio IV que foram submetidos à terapia de conversão para ressecção cirúrgica frequentemente apresentavam SMI aumentado. Como o aumento de SMI se associou ao benefício de sobrevida na terapia de conversão, torna-se importante preservar a massa muscular por meio de abordagens meticulosas, como suporte nutricional, programas de exercícios musculares e intervenção farmacológica, mesmo durante a quimioterapia em pacientes com câncer colorretal metastático. 

 

Referências:  

  1. Lv J, et al. Impact of low skeletal muscle mass and density on outcomes of locally advanced esophageal cancer patients treated with radical radiotherapy. J Clin Oncol 39, 2021 (suppl 15;  abstr e16047). DOI:10.1200/JCO.2021.39.15_suppl.e16047. 
  1. Gurjar MS, et al. The association of malnutrition and sarcopenia with geriatric assessment impairment and outcomes in patients with bladder cancer undergoing cystectomy. 2021 ASCO Annual Meeting. J Clin Oncol 39, 2021 (suppl 15; abstr 423). DOI:10.1200/JCO.2021.39.6_suppl.423.  
  1. Nozawa H, et al. Change in skeletal muscle index and its prognostic significance in conversion therapy for initially unresectable colorectal cancer. 2021 ASCO Annual Meeting. J Clin Oncol 39, 2021 (suppl 15; abstr 56). DOI:10.1200/JCO.2021.39.6_suppl.56. 

 

 

Send this to a friend