Estudo mostra que doxorrubicina lipossomal peguilada em associação com carboplatina mais bevacizumabe é novo padrão ouro no tratamento do câncer de ovário recidivado sensível à platina

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Os resultados indicaram melhora na sobrevida livre de progressão do grupo experimental, com uma redução do risco de morte ou progressão de 19% e um aumento na mediana de quase dois meses

Dr. Fernando Maluf, oncologista clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, comenta no vídeo abaixo sobre câncer de ovário recidivado platino-sensível, assunto de um estudo publicado recentemente no The Lancet Oncology. 

 

 

De acordo com Dr. Maluf, o câncer de ovário, que geralmente recidiva após 6 meses, é considerado uma doença potencialmente platino-sensívelInclusive, o tratamento baseado em platina é atualmente o padrão recomendado. 

Estudos randomizados e meta-análises indicam que a combinação com platina é melhor em termos de sobrevida global do que platina-mono-agente. 

Um estudo publicado em 2010 no Journal of Clinical Oncology comparou, por exemplo, a combinação de carboplatina com doxorrubicina lipossomal peguilada versus carboplatina e paclitaxel, que na época era o esquema de tratamento padrão. Esse estudo, CALYPSO, mostrou melhor tolerabilidade e melhor sobrevida livre de progressão com carboplatina-doxorrubicina lipossomal peguilada. Outros regimes à base de platinas também foram desenvolvidos: quimioterapia sistêmica gemcitabina-carboplatina (OCEANS) e paclitaxel-carboplatina (GOG-0213) em combinação com bevacizumabe. 

Um recente trabalho (NCT01837251) publicado no The Lancet Oncology avaliou o uso de bevacizumabe em combinação com regime de quimioterapia mais amplamente utilizado e mais ativo: carboplatina mais doxorrubicina lipossomal peguilada. Trata-se de um ensaio multicêntrico (159 centros acadêmicos na Alemanha, França, Austrália, Áustria e Reino Unido), aberto, randomizado e de fase III, que recrutou 682 pacientes ≥ 18 anos de idade e ECOG 0-2, que apresentavam carcinoma epitelial de ovário, primário peritoneal ou de trompa de Falópio, cuja primeira recidiva tumoral ocorreu depois de 6 meses após exposição à platina em primeira linha de tratamento sistêmico. 

As pacientes foram randomizadas aleatoriamente na proporção de 1:1 usando blocos permutados aleatoriamente. Com essa abordagem, busca-se alcançar o equilíbrio entre os grupos de tratamento. O esquema de randomização consiste em uma sequência de forma que cada bloco contenha um número pré-especificado de atribuições de tratamento em ordem aleatória de tamanho dois, quatro ou seis para receber: 

  1. Grupo controle (padrão): bevacizumabe (15 mg/kg, dia 1), carboplatina (AUC 4, dia 1) e gemcitabina (1000 mg/m², dias 1 e 8) a cada 3 semanas; 
  2. Grupo experimentalbevacizumabe (10 mg/kg, dias 1 e 15), carboplatina (AUC 5, dia 1) e doxorrubicina lipossomal peguilada (30 mg/m², dia 1) a cada 4 semanas. 

Ambos os braços receberam 6 ciclos de tratamento e o bevacizumabe poderia ser continuado após a quimioterapia ter terminado. 

O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão (SLP), avaliada pelo investigador de acordo com RECIST1.1. Os dados de eficácia foram analisados ​​na população com intenção de tratar. A segurança foi avaliada em todas as pacientes que receberam pelo menos uma dose do medicamento do estudo. 

Os resultados indicaram melhora na sobrevida livre de progressão do grupo experimental, com uma redução do risco de morte ou progressão de 19% e um aumento na mediana de quase dois meses. 

O acompanhamento médio para SLP na data de análise dos dados (10 de julho de 2018) foi de 12,4 meses no grupo experimental e 11,3 meses no grupo controle. A mediana de SLP foi de 13,3 meses para o braço experimental versus 11,6 meses para outro braço (HR 0,81; IC95% 0,68 – 0,96; p = 0,012), respectivamente. A tolerabilidade dos dois grupos foi bastante aceitável. O acompanhamento médio para a sobrevida global (SG) foi de 27,8 e 25,5 meses para o grupo experimental e para o grupo controle, respectivamente. A SG mediana foi de 31,9 versus 27,8 meses (HR 0,81; IC95% 0,67 – 0,98; log-rank estratificado p = 0,032), também respectivamente. 

Os eventos adversos de graus 3 ou 4 mais comuns foram hipertensão (27% versus 20%) e neutropenia (12% versus 22%) no grupo experimental e no grupo padrão, respectivamente. Eventos adversos graves ocorreram em 10% versus 9%, respectivamente. Mortes relacionadas ao tratamento ocorreram em 1 paciente (perfuração do cólon) do grupo experimental e 2 pacientes (síndrome de desmielinização osmótica e hemorragia intracraniana) do grupo padrão. 

O oncologista encerra o vídeo concluindo que, com base nesse estudo, o novo padrão ouro de tratamento para pacientes sem mutação de BRCA1 ou BRCA2 deve ser a combinação de carboplatina-doxorrubicina lipossomal peguilada-bevacizumabeJá em pacientes com a mutação BRCA1 ou BRCA2 não expostas anteriormente aos inibidores de PARP de manutenção pósprimeira linha, carboplatina e doxorrubicina lipossomal peguilada representam melhor opção seguido da resposta de inibidor da PARP, sendo o olaparibe o mais utilizado. 

 

Referências: 

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Coleman RL, Brady MF, Herzog TJ, et al. Bevacizumab and paclitaxel-carboplatin chemotherapy and secondary cytoreduction in recurrent, platinum-sensitive ovarian cancer (NRG Oncology/Gynecologic Oncology Group study GOG-0213): a multicentre, open-labelrandomisedphase 3 trial. Lancet Oncol 2017; 18: 779–91. 

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Pujade-Lauraine, E et al. Pegylated liposomal Doxorubicin and Carboplatin compared with Paclitaxel and Carboplatin for patients with platinum-sensitive ovarian cancer in late relapse Clin Oncol, 2010, 28(20):3323-9.

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