Como os estudos de vida real em mieloma múltiplo podem colaborar com a prática clínica diária

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Dra. Carolina Militão, médica hematologista da MultiHemo (Grupo Oncoclínicas), de Recife, comenta como os resultados dos estudos de vida real em mieloma múltiplo já estão sendo incorporados na sua prática clínica.

Os estudos de vida real começaram a aparecer em 2015 quando médicos observaram algumas diferenças entre os resultados dos estudos clínicos em mieloma múltiplo e a prática clínica, principalmente em relação aos dados de sobrevida global e sobrevida livre de progressão, independentemente da combinação de drogas.

Para ilustrar, a especialista comenta sobre um estudo polonês publicado nessa época que pontuou as variáveis que diferenciavam os resultados da vida real dos resultados de estudos randomizados. Entre as mais importantes estava o objetivo do estudo. Nos ensaios clínicos, por exemplo, a eficácia é um objetivo relevante, uma vez que são trabalhos muito bem desenhados, em que o médico é o investigador, existe um grupo fixo de pacientes e eles são monitorados dentro de um protocolo. Por outro lado, em vida real, o objetivo da efetividade busca analisar o que é melhor para o paciente e o tratamento requer um ajuste diário.

Também em 2015, Philippe Moreau publicou um abstract no evento da American Society of Hematology (ASH) em que definia os critérios de inclusão e exclusão dos pacientes em estudos de vida real versus estudos controlados. Neste último, o critério de exclusão mais relevante era a refratariedade a algum tipo de medicamento usado previamente no tratamento para mieloma múltiplo e os critérios de inclusão eram o ECOG e as comorbidades.

Em 2018, Chari A, et al. publicaram uma comparação dos resultados dos estudos ASPIRE, TOURMALINNE, POLLUX e ELOQUENT mostrando que boa parte dos pacientes desses ensaios clínicos não se encaixaria nos critérios de elegibilidade e inelegibilidade, pois os pacientes de vida real apresentam comorbidades, refratariedade, alteração da função renal, etc. Outra conclusão dos pesquisadores foi a de que os pacientes não elegíveis não tinham boa sobrevida global.

Outro exemplo de 2018, conta a médica, é um estudo de Richardson et al que analisou os impactos de diferentes propostas de tratamento (como combinação de drogas triplet, quadruplets ou até mesmo duplet) de pacientes com mieloma múltiplo nos estudos controlados e os de vida real. Eles concluíram que é preciso encontrar uma combinação adequada de drogas para servir aos pacientes de ambos os casos.

Dra. Carolina Militão conclui ressaltando que estudos de vida real são importantes para entender como os pacientes que não preenchem os critérios de elegibilidade se comportam no dia a dia, além de oferecer aos médicos subsídios para decidirem de maneira mais clara e objetiva o melhor tratamento. Ela complementa, por fim, que não há como substituir um estudo pelo outro, reforçando a importância de ambos para tornar os médicos mais preparados na escolha do tratamento, com menor custo e maior benefício a cada vez mais pacientes.

Referências:
Wierzbicka, N. The evolving landscape for real world evidence in Poland: physicians’ perspective. JHPOR 2015; 1:15-33

Moreau P et al. Ixazomib, an investigational oral proteasome inhibitor (PI), in combination with lenalidomide and dexamethasone (IRd), significantly extends progression-free survival (PFS) for patients (pts) with relapsed and/or refractory multiple myeloma (RRMM): The phase 3 Tourmaline-MM1 study (NCT01564537). Proc ASH 2015;Abstract 727

Moreau, P et al. Oral Ixazomib, Lenalidomide, and Dexamethasone for Multiple Myeloma NEJM 2016;374:1621-1634

Chari et al. Poster PS1336 presented at EHA 2018, available at https://library.ehaweb.org/eha/2018/stockholm/215636/

Richardson PG, San Miguel JF, Moreau P, et al. Interpreting clinical trial data in multiple myeloma: translating findings to the real-world setting. Blood Cancer J. 2018;8(11):109. Published 2018 Nov 9. doi:10.1038/s41408-018-0141-0
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30413684/

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